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Do R7

Elas estão nas esquinas de Fortaleza, geralmente no fim da tarde ou no início da noite. Conversam tranquilamente, como se estivessem entre amigas. E, em alguns casos, estão mesmo. Algumas mexem no celular, ouvem música. As roupas curtas até chamam a atenção, mas não são de todo indiscretas diante do calor da capital cearense.

A cena que mostraria um encontro de meninas ganha um contorno diferente quando os carros se aproximam. São vários. Os rostos e corpos não deixam dúvidas: todas são ainda muito novas. Mas isso não intimida os motoristas.

A conversa para marcar o programa geralmente não demora. E estas meninas somem na noite, para retornar horas depois às esquinas onde são exploradas.

“Prostituição infantil” era o termo usado diante da cena que acabamos de descrever. Só que a palavra “prostituição” carrega a ideia de consentimento, o que não existe quando um dos protagonistas é uma criança.

Para os especialistas, estas meninas - e também meninos - que trocam seus corpos por dinheiro são “explorados sexualmente”. Sempre há diante destas crianças um adulto explorador: o cliente que paga o programa, o cafetão ou cafetina, a família que consente ou estimula.

Fortaleza ganhou fama internacional como um centro de turismo. A proximidade com a Europa é um atrativo, além das belas praias e o clima quente por todo ano. Só que um componente crucial desta sedução é o sexo. No caso de crianças e adolescentes, a possibilidade de abuso. Movida a dólares e euros.

Não é preciso muita imaginação para saber que uma cena como a que descrevemos no início da reportagem é impensável em qualquer cidade de um país desenvolvido. Só que na capital cearense este cenário existe, se alimenta da miséria, do descaso e do dinheiro que vem de longe.

É também em Fortaleza que começa a BR-116, a estrada que rasga o território brasileiro de norte a sul, deixa uma marca de integração nacional e uma ferida exposta: a exploração sexual infantil.

https://img.r7.com/images/pontos-de-exploracao-sexual-28012021082033360

Com um pouco de vergonha e um jeito tímido, a adolescente que vamos chamar de Carolina conversa sobre os motivos que a levaram para as ruas da cidade. Aos 17 anos, já é mãe. Com o nascimento da criança, alega não ter como se sustentar. O pai mora em outro estado e não manda ajuda.

“Não é por mim, é pelas condições da minha família e tenho meu filho pra criar. Minha mãe não trabalha, ela também é pobrezinha e eu ajudo  junto com a minha irmã”, justifica a adolescente.

Carolina segue os passos da irmã mais velha, que começou a se prostituir na adolescência e hoje diz ter 24 anos. Nenhuma delas anda com documentos para comprovar a idade. Os clientes não se importam com isso.  “Sempre tem os homens que gostam de menina mais novinha”, confessa.

No meio da entrevista, o jeito de menina transborda. “Falando com vocês aqui, dá até vontade de chorar. É uma vida muito diferente de uma vida normal, mas eu faço isso por 'precisão' ”, desabafa.

Ela repete várias vezes que só está nas ruas porque passa necessidade. E diz que largaria tudo se encontrasse um companheiro que a ajudasse. “Se eu conhecesse uma pessoa que me sustentasse e me desse tudo, eu não ficava nessa vida.”

É difícil não pensar que o desejo por um “príncipe encantado” que a retire desse pesadelo nas ruas tenha um ar infantil. O pouco que restou da garota que ela foi um dia. E ainda deveria ser.


repórter de investigação e pauta: Flávia Prado  repórter: Marcus Reis imagens: Leopoldo Moraes  auxiliar: Jaime Nascimento   edição: Larissa Werren sonorização: Felipe Égea e Renata Kuzuoka  edição de pós-produção: Miguel Wesley coordenação digital: Marcio Strumiello chefia de reportagem: Mateus Munin e Renata Garofano editor- executivo: Marcelo Magalhães editora-chefe: Cristiane Massuyama  projetos especiais: Gustavo Costa chefe de redação: Pablo Toledo