Ver o conteúdo do artigo
Do R7

Lívia, como vamos chamar essa jovem, tem jeito de menina. A boneca ainda faz companhia, mas agora o celular é a distração preferida. Qualquer pessoa que se depare com ela não terá dúvidas de que está diante de uma garota. Mas isso não impediu que Lívia passasse os últimos dois anos sendo explorada sexualmente.

Uma em cada quatro meninas será vítima de abuso ou exploração sexual até os 18 anos.
Uma em cada quatro meninas será vítima de abuso ou exploração sexual até os 18 anos.

“Você não quer fazer ali, entendeu? Aí a gente tem que fazer, né? A gente precisa, porque eu não podia ficar com fome, né?”, justifica.

Aos 16 anos, ela mora com o namorado de 17, a quem chama de marido. A adolescente recebe apoio de uma ONG que atua no sudoeste baiano. Foi o garoto quem pediu para que Lívia deixasse de se prostituir. A ONG deu o apoio emocional – o empurrão que faltava para que ela abandonasse as noites de abuso com caminhoneiros.

A adolescente tenta um recomeço. Quer ter finalmente um lugar para chamar de lar. Órfã de pai, ela relata que a relação com a mãe era cheia de conflitos e agressões físicas.

Foi o convite de amigas que abriu o capítulo mais dramático na vida dela. Um posto de combustíveis da cidade era o local que essas meninas faziam os “corres”, os programas com os caminhoneiros.

“As meninas me chamaram, ‘bora ganhar dinheiro', aí eu fui, nas más influências…”, relembra Lívia. Com tranquilidade, ela fala sobre as abordagens. “Você pega uma carona e vai. O caminhoneiro vai lá, para, e você vai. Tem uns que te chamam, 'bora fazer um corre' ”, recorda.

Ela conta que a idade nunca foi problema. “Eles gostam mais de mulher nova.”

A adolescentes não explica quando o uso da cocaína começou, se foi antes ou durante o período que ela frequentava o posto onde fazia os programas, mas, em pouco tempo, já trocava sexo pela droga. Ainda revela que era explorada por outras meninas que trabalhavam no local.

“As meninas queriam uma parte do meu dinheiro, eu ia e dava. Elas falavam assim, 'vou ali buscar um pó pra nós', aí sumia. Não trazia nada. Perdi muito dinheiro”, conta.

Quando questionada sobre o passado recente, a garota sabe que a exploração sexual infantil é um problema. “Tem meninas mais novas que eu que já passaram e ainda passam (por isso)”.

O recomeço é longo. Lívia tenta retomar os estudos. Para as outras meninas que continuam sendo exploradas, ela deixa um recado. “Eu falaria assim, que elas mudassem a vida delas. Isso é um exemplo que eu tô dando. E eu quero falar pra elas não passarem isso que eu já vivi. Porque isso não é vida, né?."

Para denunciar a exploração sexual contra crianças e adolescentes, disque 100 ou clique aqui
Voltar para a HOME

repórter de investigação e pauta: Flávia Prado  repórter: Marcus Reis imagens: Leopoldo Moraes  auxiliar: Jaime Nascimento   edição: Larissa Werren sonorização: Felipe Égea e Renata Kuzuoka  edição de pós-produção: Miguel Wesley coordenação digital: Marcio Strumiello chefia de reportagem: Mateus Munin e Renata Garofano editor- executivo: Marcelo Magalhães editora-chefe: Cristiane Massuyama  projetos especiais: Gustavo Costa chefe de redação: Pablo Toledo