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Do R7

Thaís ainda mora perto da BR-116, local onde passou o maior trauma que teve na vida.

Hoje aos 24 anos, ela não consegue esquecer o que viveu numa tarde, quando ainda era uma menina e foi abordada por uma mulher às margens da rodovia.

A garota de 13 anos ouviu da desconhecida uma proposta de trabalho. Thaís não precisaria de nada além da disposição para conseguir o emprego. Poderia ir com a roupa do corpo e o “registro”, que tudo daria certo. Como num passe de mágica, a menina pobre e que sofria com a fome deixaria o árido Cariri para viver uma vida cheia de oportunidades em Maceió.

Como uma personagem malévola de uma fábula infantil, esta mulher fez um único pedido em troca de tanta generosidade. Thaís não deveria avisar a família. E teria que se reencontrar com essa “fada madrinha” na estrada em poucas horas.

“Ela disse que quando chegasse lá, já era certo o emprego, ia dar um adiantamento”, lembra.

Com uma inocência rara, Thaís aceitou. Não avisou a avó, com quem vivia, e partiu para a BR-116 com a roupa do corpo.

Existem 3651 pontos vulneráveis a exploração sexual infantil nas estradas do país. O Ceará é o estado em situação mais crítica.
Existem 3651 pontos vulneráveis a exploração sexual infantil nas estradas do país. O Ceará é o estado em situação mais crítica.

Hoje, às margens da rodovia, ela conta com uma fala acelerada o que passou. “Chegou ela e o motorista, já tava com o carro ligado. Ela disse ‘sobe que é meu amigo’ ”, relembra Thaís.

Conforme a história avança, a ansiedade aumenta e a voz diminui de tom, as explicações ficam truncadas… Sinais de uma dor e vergonha que ressurgem à medida que o relato prossegue.

Nesta jornada ao desconhecido, a carruagem era um caminhão. E logo a fada madrinha viraria bruxa. “Ele (caminhoneiro) começou com umas brincadeira, balançando o caminhão pra me assustar'', conta.

A brincadeira de mau gosto do caminhoneiro ainda era pouco perto do que viria.

A mulher, antes tão bondosa, agora pedia uma compensação. “Você vai ter que se sustentar agora, vai ter que me devolver o dinheiro que eu gastei com você”, recorda Thaís.

A compensação seria ter relações sexuais com o motorista, que havia pago pela companhia da menina. Thaís conta que resistiu. “Eu disse:   ‘o que tá acontecendo? Você não disse que eu ia trabalhar?’. Ela disse: ´tu achava que eu te levei pra trabalhar?’ Fiquei desesperada”, confessa.

A menina assustada reagiu, gritou. E as duas foram abandonadas pelo caminhoneiro. Só que a mulher não desistiu de explorar Thaís sexualmente.

A menina foi oferecida a diversos motoristas pelo caminho até que conseguiu escapar e procurou o conselho tutelar de Maceió, o destino prometido no início da viagem. A aliciadora nunca foi presa. Thaís a conhecia apenas por “Michelle”, possivelmente um nome falso.

A jovem diz ter conseguido se desvencilhar de todas as investidas sexuais que recebeu, apesar de este ser um cenário bastante improvável.

A garota voltou para casa, mas nunca mais foi a mesma pessoa.  A menina ingênua que ela era partiu na boleia daquele caminhão para sempre. E encontrou pelo trajeto o vício. “Usei de tudo. Pedra, pó, maconha. Fiquei desgostosa, minha vida não tinha sentido”, revela.

Hoje, ela tenta se reerguer. Tem três filhos para criar. Mas sabe que nunca vai conseguir esquecer o que viveu na BR-116. “Lembro de tudo, tudo. Não esqueço nunca. Lembro de tudo que passou.”

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repórter de investigação e pauta: Flávia Prado  repórter: Marcus Reis imagens: Leopoldo Moraes  auxiliar: Jaime Nascimento   edição: Larissa Werren sonorização: Felipe Égea e Renata Kuzuoka  edição de pós-produção: Miguel Wesley coordenação digital: Marcio Strumiello chefia de reportagem: Mateus Munin e Renata Garofano editor- executivo: Marcelo Magalhães editora-chefe: Cristiane Massuyama  projetos especiais: Gustavo Costa chefe de redação: Pablo Toledo