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Marcus Reis, Giselle Barbieri e Mariana Ferrari, da Record TV
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Reprodução/Record TV

O aviso veio na madrugada. Todas as famílias precisavam deixar suas casas imediatamente. Se a ordem não fosse respeitada, elas pagariam um preço alto.

"Se não for embora, morre. Em 24 horas foi todo mundo embora"

Os relatos de quem foi expulso da própria casa detalham a frieza dos criminosos.

"Um cara chegou aqui e perguntou porque eu não havia saído ainda. Que ele já havia mandado eu sair. Mas eu não tinha para onde ir"

Os moradores, que não podem ser identificados por segurança, deixaram para trás móveis e roupas assim que a ameaça se agravou.

"Vamos botar fogo na sua casa com tudo dentro, nos disseram"

"Eu construí com o maior sacrifício pra ter que sair dela sem ter pra onde ir"

Aos poucos, 50 casas foram abandonadas. No dia seguinte, a rua da periferia de Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza, estava completamente deserta. Um silêncio imposto pelo terror.

A ordem, que veio de uma facção local, retrata o que está por trás das cidades mais violentas do País. Uma guerra urbana que vai além de furtos e roubos do dia a dia no Brasil.

A expansão do crime organizado, as leis impostas pelos traficantes, chacinas, feminicídio e a letalidade policial são as razões que colocaram as pequenas e médias cidades do Nordeste no topo do ranking da criminalidade.

A equipe do Câmera Record percorreu três dos municípios apontados como os mais perigosos pelo último levantamento do Anuário Brasileiro de Segurança Pública: Caucaia (CE), Nossa Senhora do Socorro (SE) e Feira de Santana (BA).

Sabíamos que o nosso roteiro passaria perto das famosas e disputadas praias do Nordeste, mas desta vez seria necessário trabalhar nas áreas mais arriscadas, longe dos olhos dos turistas e dominadas por facções para conseguir decifrar o que os números do ranking da violência não mostram.  

Os dados foram compilados de informações fornecidas por governos estaduais, federal e polícias.

Para comparar cidades maiores e cidades menores, o Anuário calcula os números da violência por cada 100 mil habitantes - ou seja, proporcional a cada região. São Paulo, em 2020, teve mais homicídios do que Caucaia, no Ceará. Mas quando analisados proporcionalmente pelo números de moradores, chegamos à conclusão que os riscos de um assassinato em Caucaia são muito maiores do que na capital paulista.

Os registros referentes ao primeiro ano da pandemia fazem as autoridades em segurança pública olharem para regiões que nem sempre estão no caminho dos grandes investimentos, mas que, pelo visto, já estão na rota da criminalidade. 

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Arte R7
O que faz de Caucaia a cidade mais violenta do Brasil

Caucaia fica a 17 quilômetros das paradisíacas praias de Fortaleza. A cidade à beira mar ultrapassou São Paulo, Rio de Janeiro, Belém do Pará, Salvador e ostenta o título de município mais violento do Brasil. A explicação está numa guerra urbana que aflige as grandes capitais, mas que em 2020 também atingiu Caucaia: as disputas entre facções.

Quando o nosso carro cruza ruas estreitas do bairro Padre Julio Maria, um aviso gigante pichado no muro diz tudo: estamos entrando em território dominado pelos criminosos.  

Na parede, a ameaça: "Baixe o vidro, tire o capacete. Se não fizer,
a bala come". A mensagem expressa o terror ao qual os moradores são submetidos - mesmo que essa imposição venha de alguém desconhecido. 

O "Comando da Laje", facção local, braço direito do Comando Vermelho, do Rio de Janeiro, se intitula o grupo líder da região. Impõe ordens do que pode ou não na comunidade. E cria leis próprias que todos os moradores são obrigados a cumprir.

No bairro vizinho, Picuí, as ameaças são ainda mais explícitas. Na parede de uma casa, os mandamentos da facção: proibido roubar no bairro, delatar (qualquer bandido da comunidade) e cobiçar a mulher dos outros. A pichação ainda pede: "seja coletivo e oriente os mais novos". E por fim, a punição: "se fofocar, leva pauladas". 

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Reprodução/Record TV

A equipe da Guarda Municipal de Caucaia, que estava em uma viatura à nossa frente, orienta que deixemos o bairro. Pelo sinal do rádio comunicador dos traficantes, nossa equipe havia sido descoberta e estava sendo monitorada por eles. Por segurança, deixamos a região, mas registramos dezenas de mensagens nos muros que apareciam pelo nosso caminho.

Por trás destes avisos estão o "Comando Vermelho" e os "Guardiões do Estado" - as facções que disputam, de maneira mais sangrenta, os territórios para venda de drogas em Caucaia. O "PCC", de São Paulo, também ocupa bairros da cidade, mas com menor força.

"A característica preponderante é a violência. Nós já tivemos inúmeros casos de esquartejamento, de cortar a cabeça, de realmente ofender a integridade física do outro"

Adriano Saraiva, promotor de Justiça do Ceará

A guerra por territórios leva a chacinas como a registrada em julho na zona rural da cidade. Cinco pessoas foram mortas a mando de Diones Rosa de Carvalho, o "Vaqueirinho". Ligado ao Comando Vermelho, ele foi preso duas semanas depois em uma megaoperação que contou com 400 policiais e até um helicóptero.

No ano passado, os números de homicídios - resultado deste conflito - atingiram índices preocupantes para uma cidade com 360 mil habitantes. Caucaia disparou e ocupa a liderança do ranking dos municípios mais violentos do Brasil.

Foram 360 mortes intencionais - quase uma por dia. Fechou o ano com 98,6 mortes para cada 100 mil habitantes. Ultrapassou o Rio de Janeiro que teve 21 e São Paulo com 9,5 mortes por 100 mil habitantes.

Mas por que as facções disputam tantos territórios em Caucaia? A explicação pode estar na geografia.

Caucaia está perto da capital, Fortaleza - e ao mesmo tempo longe do foco principal da segurança pública.

É uma cidade plana, de fácil locomoção, e territorialmente gigantesca (quase quatro vezes maior do que a capital).

Tem muito mais vegetação do que terrenos construídos - o que facilita fugas e esconderijos.

Além disso, pode ser estratégica para o tráfico de drogas já que fica ao lado do terminal portuário do Pecém -  rota para exportação da droga.

"O cidadão não pode andar três quarteirões porque aqui pertence ao "Comando Vermelho" e lá pertence à "Laje", ou ao "PCC". Acontece com posto de saúde, acontece com acesso à educação, com acesso ao lazer. É uma ditadura do crime"

Vitor Valim, prefeito de Caucaia

A polícia militar e a prefeitura de Caucaia instalaram cinco bases em áreas onde os moradores foram expulsos recentemente pelo crime. Com isso, o secretário de Segurança Pública do Ceará diz que a criminalidade já diminuiu. O índice de homicídio, segundo Sandro Caron, caiu 27,9% no primeiro semestre de 2021 em comparação com o mesmo período do ano passado.

Mas muita gente ainda não teve coragem de retornar para suas casas. 

Feira de Santana e a letalidade policial

Mil quilômetros depois, descemos em Salvador. A Bahia liderou o número de mortes violentas no País em 2020 com mais de 5.300 homicídios. Mas o que chama a atenção, ao nos debruçarmos nos dados, é que mais de 1.100 dessas vítimas perderam a vida pelas mãos da polícia - sejam bandidos ou inocentes.

Acompanhamos uma operação do Grupo de Operações da Polícia Militar de Salvador.

A operação aconteceu no bairro de Valéria, na periferia da capital. Os bandidos, armados, conseguiram se esconder em meio à mata fechada que fica aos fundos da comunidade. A polícia desistiu de seguir em frente, já que anoitecia no momento da incursão.

"Onde a gente foi, poderia ter uma troca de tiros. A gente tem segundos para decidir parar quando está passando um popular. Qualquer erro, somos responsabilizados"

Harryson Lemos Nunes, tenente da PM

Mas o que os especialistas em segurança procuram entender é se a polícia baiana está preparada, de fato, para tomar decisões no momento do confronto sem colocar em risco a população - já que os números de mortos pela letalidade policial cresceram violentamente.

Seguimos 100 quilômetros pela estrada até Feira de Santana - a terceira cidade mais violenta do Brasil, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Foram 90 mortes registradas a cada 100 mil habitantes.

Uma dessas mortes foi a do jovem Adielson, de 14 anos. Cinco meses após o assassinato do garoto, a investigação continua cheia de lacunas.

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Reprodução/Record TV

A família diz que Adielson morreu com um tiro em casa, quando havia levantado para ir ao banheiro. O disparo veio da rua e da arma de um policial que pode ter confundido o menino com um criminoso.

A polícia contesta essa versão. Diz que Adielson estava traficando no bairro e atirou quando avistou os PMs. Na fuga e, no confronto, acabou baleado, mas conseguiu correr até a casa onde morava. 

Duas versões bem diferentes para uma mesma história. Mas qual delas é a verdadeira?

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Reprodução/Record TV

O caso está sendo investigado pela corregedoria da polícia. A equipe do Câmera Record descobriu que o laudo residuográfico deu negativo. Ou seja, não se encontrou indícios de que Adielson tenha atirado contra a polícia. 

Descobrimos também que, cinco meses após o crime, a família do garoto não havia sido chamada para depor. E o mais grave: na época, a perícia não esteve no local da morte.

As dúvidas em relação à morte de Adielson também estão presentes em centenas de outros casos.

"É praticamente impossível concluir as investigações sobre policiais que matam no País, porque há um conjunto de camadas que vão desde a fragilidade do registro de ocorrência, com alteração na cena do crime, com perícias não realizadas ou realizadas de modo equivocado, até conivência das autoridades com a violência policial", diz Felipe Freitas, pesquisador de criminologia da Universidade Estadual de Feira de Santana.

O inquérito que aponta o que aconteceu com Adielson foi concluído após as gravações do Câmera Record. Oito pessoas foram ouvidas e o material já está com o Ministério Público. Mas o delegado de Feira de Santana não informou qual foi a conclusão.

Violência contra a mulher: A cidade que tenta sair do ranking

Desembarcamos em Aracaju (SE) numa quinta-feira com destino a Nossa Senhora do Socorro - a décima cidade mais violenta do Brasil.

Os números da criminalidade também dispararam por lá em ano de pandemia. Mas quando destrinchamos os dados, descobrimos que as maiores vítimas são as mulheres. Agressões físicas, ameaças, feridas emocionais e feminicídio endossam o ranking do Anuário Brasileiro de Segurança Pública deste município com 185 mil habitantes. Só que os reflexos respingam em todo o Estado.

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Jackeline Melo, de 22 anos, seria mãe em breve. Estava grávida de oito meses. Pouco tempo antes da chegada da pequena Maria Alice foi assassinada a facadas pelo companheiro.

O crime aconteceu na periferia de Aracaju assim que chegamos na cidade. 

A jovem Jackeline saiu de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, para viver um amor a 2500 quilômetros da família.

Foi morar com Edielson Santos Vidal numa casa simples em Aracaju. Ao lado dele, descobriu um relacionamento abusivo. Por causa de ciúmes, vivia trancada. As agressões eram frequentes e as ameaças também.

Por mensagens, numa rede social, Jakeline desabafava com a irmã. Enviava fotos de machucados e relatava os espancamentos que sofria.

"Ele mantinha a Jackeline em cárcere privado. Ele controlava absolutamente tudo o que ela fazia. Sempre foi um relacionamento abusivo, tóxico. Ele a agrediu por diversas vezes"

Letícia Melo, irmã de Jackeline

A família não conseguiu tirar Jackeline a tempo do relacionamento. Ela e a bebê morreram na casa onde moravam havia 10 dias. Já Edielson, foi preso em flagrante.

Assim como Jackeline, outras 1.350 mulheres também viraram números de feminicídio no Brasil no primeiro ano da pandemia.

Em Sergipe, as tentativas de assassinatos de mulheres subiram 246% em relação ao levantamento anterior.

Situação crítica também é registrada em Nossa Senhora do Socorro, na região Metropolitana da capital.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública calculou uma taxa de mais de 68 mortes de homens e mulheres a cada 100 mil habitantes. Com isso, a cidade passou a décima posição das mais violentas do País.

O que mais chocou as autoridades foi o crescimento do número de feminicídios.

As vítimas passaram a morrer com mais frequência pelas mãos dos companheiros.

Na tentativa de resolver esses casos, uma delegacia só para atender as ocorrências domésticas foi criada no município. E, segundo a delegada, não há um dia sequer na semana sem registro de pelo menos uma ocorrência contra mulher. Foram 568 só em 2020.

"Tem aquele homem que vive constantemente embriagado. O álcool é um problema aqui. Além do álcool, outros tipos de drogas ilícitas. Também tem a questão da não ocupação. Eles estão mais em casa, por conta da pandemia, e os problemas se avolumam"

Maria Socorro Carvalho, delegada de polícia

Em Nossa Senhora do Socorro, menos de 12% da população tem emprego formal, segundo o IBGE.

Já para a delegada não houve aumento no número de casos de violência contra mulher. Aumentou o número de mulheres encorajadas a denunciar os agressores.

A sensação de segurança a que ela se refere vem da Patrulha Maria da Penha. Um projeto do Tribunal de Justiça do Estado junto com a prefeitura de Nossa Senhora do Socorro que protege, atualmente, sete mulheres na cidade.

Como funciona a Patrulha Maria da Penha

Quando a mulher vítima recebe uma medida protetiva, o homem agressor é impedido de se aproximar dela. A Guarda Municipal passa a vigiar, todos os dias, a casa da vítima.

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A viatura também passa perto da casa do agressor na tentativa de lembrá-lo que está sendo monitorado. Dessa maneira, as mulheres vítimas podem se encorajar a sair de casa.

Se o homem agressor se aproximar dela, a mulher vítima pode entrar em contato diretamente com a viatura - que, em poucos minutos, aparece.

A Patrulha Maria da Penha está funcionando há um ano e pretende trazer de volta a calmaria e a segurança da pequena cidade.

Tirar Nossa Senhora do Socorro do ranking dos municípios mais violentos do Brasil requer mudar o comportamento dos homens que vivem por aqui e apresentar a eles uma nova cultura: a de que agressões não são mais toleradas na sociedade.