Crônica: Jacarezinho

Repórter do Câmera Record relata a sua experiência em uma das comunidades do Rio de Janeiro

  • Crônicas | Rogério Guimarães, da Record TV

Os moradores da comunidade do Jacarezinho (RJ) enfrentam uma realidade ainda mais difícil durante a pandemia

Os moradores da comunidade do Jacarezinho (RJ) enfrentam uma realidade ainda mais difícil durante a pandemia

Reprodução/Record TV

Foi minha primeira imersão em uma favela do Rio de Janeiro, chegamos para ficar cinco dias, e cumprimos o planejado. A cada saída do hotel à comunidade, eu gerava uma expectativa regada à adrenalina e tensão.

Havia muita coisa envolvida naqueles dias, honrar o que fora acertado entre nossa produção e a ONG que franqueou nossa entrada na favela, descrever os ambientes sem encarar muito as pessoas que ocupavam aqueles ambientes, captar a realidade de miséria que ninguém vê só com uma passada rápida de olho.

Os becos do Jacarezinho escondem universos muito complexos, garantir uma reportagem sensível e honesta com toda limitação de tempo e espaços onde poderíamos apontar nossa câmera, era um desafio a ser superado a cada dia de gravação.

Chegamos em uma das entradas do Jacarezinho perto das 17h. Um dos membros da ONG, que leva o nome da comunidade, já esperava por nós no estacionamento da unidade de saúde que fica bem embaixo da linha do Metrô. A orientação era não avançar para a comunidade sozinhos por razões óbvias. Obedecemos.

Começava a anoitecer quando entramos. Foi pelo acesso estreito sob um pequeno viaduto. Havia um córrego por ali e na calçada diversos usuários de crack, já com aspecto físico de zumbis. Não é fácil acostumar os sentimentos com a imagem tão deteriorada e distante que o usuário carrega. Para piorar o cenário decadente, na calçada onde estavam, escorria parte do esgoto da comunidade. Passamos por eles até chegar na entrada por onde deveríamos passar, logo depois do pequeno viaduto.

Havia barras de ferro no portal, quatro, eu acho, fincadas no asfalto, limitando a largura da passagem de veículos. Dava para passar um carro de passeio comum, e também caminhões pequenos do tipo VUC, e motos. Muitas motos. Após essa barreira, havia sentinelas. Discernimos a situção de imediato e passamos sem muita observação. Não era o nosso foco embora para um jornalista tudo entra no foco, inclusive a prudência.

Menos de vinte metros depois, chegamos à praça da Concórdia, no coração da comunidade, onde fica a sede da ONG Viva Jacarezinho. Lá já havia meia dúzia de pessoas, senhoras basicamente, aguardando na fila da doação de peixes, que ocorre pelo menos uma vez na semana.

Na fila, com a senha número um, conheci Dona Luci, de 86 anos. Ela mora sozinha, mas ajuda a sustentar o neto com a esposa, ambos desempregados. Esperou por quase quatro horas na fila para sair de lá com seus peixes — sete, oito, talvez —, numa sacola plástica dessas de mercado.

Entre os demais moradores, a maioria esmagadora mulheres, com ou sem filhos, estava uma senhora, discreta e de um talento surpreendente. O banquinho que ela levou para suportar a longa espera pelo peixe, serviu, a certa altura, para criar um palco improvisado para uma amostra melancólica de Não Deixe o Samba Morrer. Era o espírito carioca na nossa frente em suas diversas nuances. Acho que nunca vou esquecer o timbre daquela voz, a reverência que ela causou entre as demais mulheres da fila, aquela modulação carregada de força, fome e saudosimo de um tempo de fartura que aquela gente não experimentava há muito tempo.

Aquelas mulheres esperavam, e eu também esperava. Parte da equipe seguiu com a ONG para a Ceasa para acompanhar o carregamento do caminhãozinho.

Centenas de moradores aguardam por horas as doações de comida

Centenas de moradores aguardam por horas as doações de comida

Reprodução/Record TV

O auxiliar do repórter cinematográfico e eu ficamos ali, no meio do povo, como estranhos no ninho. A ONG passou um aviso geral sobre nós, mas ainda assim, havia uma certa desconfiança no ar. De fato éramos estranhos, nunca tínhamos pisado ali. E naquele lugar, no coração da favela, vimos o anoitecer chegar, as motos a nos monitorar, a Lua a iluminar aquele cenário gigante em um emaranhado de becos que cruzavam a praça sob o crepúsculo carioca.

Eu já havia conversado com uma dezena de pessoas quando anoiteceu, chegaram até a pedir senha do peixe para mim, talvez pela roupa que eu usava, pelo tempo que dedicava a ouvir quem eu queria entrevistar, mas meu repertório não estava muito suficiente para aqueles moradores. Acho que esperavam mais de mim. Talvez uma doação maior, um socorro mais amplo.

A certa altura, tive fome. Resolvi comer em uma lanchonete muito simpática ali mesmo, a dona, uma senhora muito charmosa com seus quase 70 anos, vendia coxinhas e bolinhas de queijo. A massa da coxinha não era de farinha de trigo, era de mandioca. Comi uns quatro salgados. Machado de Assis explica bem meu desejo de ter aquelas coxinhas perto de mim em São Paulo quando diz: "Quem nunca invejou, não sabe o que é padecer".

Passei meu tempo muito bem ali, e claro depois lamentei ao lembrar que não teria aquelas coxinhas ao voltar para casa. Os clientes não paravam de entrar. Homens, crianças, famílias, e também os sentinelas da comunidade. Respirei fundo nessas entradas, mas percebi que a situação estava sob muito controle, apesar da tensão latente para agir em caso de alguma incursão naquele local. Curioso ouvir aqueles jovens, preparados até o pescoço, chamando a dona da venda de "tia", e pedindo duas bolinhas de queijo, no diminutivo mesmo, e um suco de maracujá. Confesso que mal mexi o meu corpo quando apareciam, apenas acompanhava com os olhos torcendo para aquela venda terminar o quanto antes.

Era muita gente faminta

Pouco depois das 20h, o peixe chegou, estava na caçamba do caminhãozinho, de uma loja de materiais de construção. O dono sempre empresta para a ONG buscar o pescado na CEASA do Rio e, depois, levar até a comunidade. A fila dobrava a esquina da Praça da Concórdia, mais de 400 senhas foram distribuídas. Quase uma tonelada de peixe só ali no Jacarezinho. As peixarias doaram sardinha large, folha de manga e pargo.

Em menos de meia hora, a carroceria do caminhaozinho estava vazia. Os voluntários raparam os últimos peixinhos para conseguir atender também quem chegou depois da distribuição das senhas.

Era muita gente faminta, e acabei percebendo um perfil recorrente entre aquela população. A maioria magra, com o rosto marcado pelos ossos da face praticamente sem qualquer camada de gordura, olhos fundos, olhar distante e, sobretudo, triste. Havia os obesos, esporáricos. Não havia o atlético, bem definido, ou aquele que demonstra no corpo o resultado de uma alimentação balanceada, nutrititva. Muitos usando chinelo de dedo nos pés. Poucos com sapatos.

A saúde bucal também parece não fazer parte da rotina do Jacarezinho. Tudo isso eu via ao cruzar com aquelas pessoas durante nossas gravações. Pensava no dinheiro que eles não têm para pagar um tratamento particular de dente, no dinheiro contado para comprar alimentos muito básicos apenas psra encher a barriga, no dinheiro que não têm psra comprar um shampoo, condicionador, comprar protetor solar fora de cogitação e por conseguinte, muitas manchas pelo rosto.

Era um retrato do Rio muito diferente de onde eu e a equipe estávamos hospedados, na Barra da Tijuca, onde o que eu via era um perfil exatamente oposto aquele do Jacarezinho.

Mônica enfrenta várias dificuldades para ter comida para os filhos

Mônica enfrenta várias dificuldades para ter comida para os filhos

Divulgação/Record TV

O peixe para a doação naquela noite chegou para ser a única carne do fim do semana, e para alguns dias depois também. Os moradores subiam a pé, aliviados momentaneamente com aquela provisão.

Cada família, esmagadora maioria representada por mulheres, retornou para o seu barraco sabendo que no dia seguinte haveria carne no prato. Reforço aqui a presença feminina no socorro às suas famílias. Elas disputam espaço nas vielas com motoqueiros, usuários e outros moradores para retornar para suas casas rapidamente, e preparar o pescado com sal, e guardar no congelador de casa ou do vizinho, e organizar as partes para cada dia da semana.

No dia seguinte, retornamos para o Jacarezinho. Fomos até a casa da Daiana. Dois cômodos, sala e cozinha, sem geladeira e sem mesa, um banheiro. No máximo, 3x3 metros quadrados para mãe e dois filhos pequenos. O mais velho ficou com o pai na separação. O peixe naquela casa tinha de durar sete dias pelo menos, até a doação da semana seguinte. Depois da demissão da Fiocruz onde era faxineira, a renda despencou e Daiana vive da venda de empada na rua. O ex-marido está desempregado. Ajuda cedendo o forno pra assar as empadas.

A Daiana disse na entrevista que não come o recheio da empada que vende, de queijo ou de frango. Para render mais para os clientes. Mas ela mesma não põe na boca aquele recheio que vende de segunda a sábado. Às vezes, ela cede para os filhos, mas nem sempre, porque precisa vender.

Ao final da nossa entrevista, sob o poste de energia elétrica onde encosta uma banca improvisada com estufa para as empadas, alguém ali perto que ouviu essa confissão da Daiana, comprou uma empada de frango e deu para ela: era um presente com uma exigência, que ela comesse ali mesmo. Daiana desabou em lágrimas. Ela chorou, e comeu.

Visitamos outras duas casas no Jacarezinho, da Kelly e da Mônica, mães de três, e de cinco filhos, respectivamente. As duas, chefes de família. Kelly, desempregada, sobrevive da ajuda de amigos e bicos que faz na comunidade como atendente nos bares. Mônica fabrica empadas numa empresa na própria favela. Renda caiu pela metade na pandemia, e três meses antes da nossa entrevista, um incêndio destruiu o quarto dela e dos filhos em casa.

As duas dependem da ajuda dos vizinhos e de amigos. Não conseguem manter os filhos sozinhas, os pais das crianças não ajudam, só resta a elas esperar pela solidariedade. Não posso fechar esse trecho sem comentar a diferença abissal das casas da Kelly e da Mônica. Mesmo vivendo na mesma comunidade, próximas uma da outra. Talvez por estar numa situação mais complicada, não tive tempo para aprofundar nos pormenores, a conservação da casa da Kelly praticamente não existia, cozinha, banheiro, sala, produto de limpeza possivelmente não passava por ali talvez há meses.

Já a casa da Mônica parecia um oásis no meio daquela sequidão de recursos. Era uma perfumada e com tudo em ordem. A pia não acumulava louças. Sempre alguém ia lá para deixar tudo limpo. São histórias distintas, admito, porém as duas carregam um fardo pesado, agora com uma carga extra, da falta de comida.

Tive medo, tive espanto, mas, admito, saí dali com saudade daquela gente que conversa olhando nos olhos

Após visitar a casa da Kelly e da Mônica, subimos na lage do prédio da ONG. Do alto, vi a imensidão que é o conglomerado de barracos do Jacarezinho, de lá era impossível enxergar o final da comunidade, mas dava para ver perto de nós, pais assentando piso em outras lages com a ajuda dos filhos, grupos reunidos na praça da Concórdia, as luzes acendendo após a despedida do Sol. Era a nossa despedida também.

Tive medo, tive espanto, mas, admito, saí dali com saudade daquela gente que conversa olhando nos olhos ou apenas te observa com o canto dos olhos, que quando possui algo nas mãos para fazer, um negócio, um serviço, uma oportunidade, te faz sentir a pessoa mais importante com um atendimento bem intencionado, recheado de vontade de vencer e de sobressair em meio aquele caos.

Assim fui tratado ao comer um churrasquinho de rua na principal do Jacarezinho. Comi três para ser sincero. Uma cafta, um de carne bovina e outro de frango com bacon e cebola, ou melhor 'cíbola', no simpático vocabulário do dono da barraquinha que saiu do Ceará com o irmão e os pais para ganhar a vida no Rio.

Quero voltar ao Jacarezinho. Em breve.

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