Pan Lima 2019 Conheça a história de Bete do Peso, pioneira e lenda do esporte no Brasil

Conheça a história de Bete do Peso, pioneira e lenda do esporte no Brasil

Primeira halterofilista brasileira em Olimpíadas foi técnica da seleção e se orgulha dos tabus derrubados e atletas que levou a Jogos Olímpicos e Pans

  • Pan Lima 2019 | Guilherme Padin, do R7, em Lima, no Peru

'Traficantes conseguem conquistar jovens. Por que o esporte não?', questiona Bete

'Traficantes conseguem conquistar jovens. Por que o esporte não?', questiona Bete

Guilherme Padin/R7

Uma vida dedicada ao esporte e à quebra de preconceitos. Maria Elizabete Jorge fez e continua fazendo história no levantamento de peso. Em um meio por muito tempo masculinizado, repleto de estereótipos machistas, foi pioneira. Bete do Peso, como é popularmente conhecida, foi a primeira halterofilista brasileira a competir nos Jogos Olímpicos. Em Sydney 2000, edição de estreia das mulheres da modalidade em Olimpíadas, ela derrubou barreiras e abriu caminho para muitas atletas que representariam o país nas duas décadas seguintes.

Aos 62 anos, a mineira de Viçosa pode dizer que já fez de tudo um pouco: foi goleira no handebol, jogou basquete, praticou atletismo, e, antes de se encontrar no levantamento de peso, trabalhou como lavadeira, garçonete e faxineira em sua cidade natal. Hoje em dia, após longa passagem como técnica da seleção brasileira da modalidade, ela mantém um projeto social para a formação de talentos, atua como árbitra no halterofilismo – esteve, inclusive, nos Jogos Lima 2019 – e quer manter seu legado para o esporte que a fez conhecer o mundo.

“Traficantes conseguem conquistar jovens. Por que o esporte não? Quero fazer essa diferença. Quero conquistar os jovens e trazê-los para o esporte”, afirma Maria Elizabete em entrevista à reportagem do R7, no último dia de competições da modalidade em Lima 2019.

Inicialmente, ao receber o primeiro convite para praticar halterofilismo, Bete recusou – “tinha medo de ficar como um homem. Coisa maluca da nossa cabeça, né?”, comenta, aos risos. Mas não demorou a abraçar o esporte e nele, mesmo com idade avançada, foi vitoriosa. Depois de lidar com o preconceito, pacientemente, começou a usar o diálogo como resposta. Assim, poderia abrir a mente das pessoas.

“Hoje, quando vejo as pessoas com preconceito, eu explico como funciona a modalidade, o que é. Só porque a mulher está levantando peso, isso não quer dizer que ela ficará como um homem. Inclusive, o levantamento de peso aumenta muito o apetite sexual da mulher e do homem”, diz a ex-atleta, que defende que a modalidade é mais adaptável à mulher que ao homem.

Ter participado da Olimpíada abriu portas para as brasileiras na modalidade

Maria Elizabete Jorge

Os centros de gravidade da mulher e do homem, argumenta ela, ficam em lugares diferentes. “Neles, na altura do peito. Nelas, abaixo do umbigo. E é nas pernas que fazemos a força para levantar o peso. Os homens nem sabem que é um esporte mais para a mulher. O que homem gosta de fazer na academia? Bíceps e supino. A mulher tem postura de agache, que é a posição do encaixe da coluna da gestante, e você levanta o peso com a perna. Então é mais adaptável mais para elas”, garante a lendária Bete do Peso.

Primeiros passos no esporte

Filha de um antigo funcionário da UFV (Universidade Federal de Viçosa) e de uma dona de casa, a segunda de seis irmãos viveu em uma casa da qual o extenso terreno da universidade ficava ao lado.

“Sempre fui acostumada a fazer exercícios por lá. Quando criança, corria atrás das galinhas, das vacas e vivia subindo em árvores”, conta. Na escola, o primeiro contato da adolescente com o esporte foi no handebol, como goleira. Logo migrou para o basquete, e, depois da chegada de um novo professor de educação física, fez um teste no atletismo, ainda que contra sua vontade.

“Eu não queria, mas ele falou para eu tentar. Fui a melhor da turma, fazendo 12 voltas em 12 minutos. Aí não parei mais. Fiquei no atletismo por muitos anos. Corria 100 metros, 100 metros com barreiras, 200 metros, fui para os 400 e 800. Passei para as provas de 3.000 e 5.000 metros. Quando vi, estava correndo provas de rua, meia-maratona, maratona... Inclusive corri a São Silvestre por seis anos consecutivos”, relembra.

Encontro com o halterofilismo

Para conciliar os treinos e sobreviver, Maria Elizabete trabalhava em diferentes funções. Foi faxineira, garçonete em uma pizzaria e lavadeira das roupas dos estudantes da UFV. Aos 32 anos, conheceu David Montero Gómez, engenheiro colombiano radicado no Brasil que teve participação ativa mas também controversa no crescimento do halterofilismo no país. Ele tornou Viçosa um dos polos do país no esporte e chegou a presidir a confederação brasileira da modalidade, mas foi afastado em 2008 por improbidade administrativa.

A inflamação na mão piorou. Doía demais, mas eu não podia deixar de representar meu país

Mariza Elizabete Jorge, sobre a Olimpíada

Para a carreira de Bete, Gómez foi importante. Foi dele o convite, em 1988, para Bete praticar o levantamento de peso. Por preconceito, ela recusou. Anos depois, ele insistiu.

“Depois do primeiro convite, eu continuei correndo. Mas estava sem treinador e desanimada. Em 1991 eu encontrei com o professor David e ele me convidou mais uma vez. Pensei: ‘Por que não?’. E fui. O treino seria no dia seguinte à conversa, uma segunda, mas me esqueci e faltei. Na mesma noite, cruzei com ele por coincidência e, morrendo de vergonha, perguntei quando seria o próximo. Ele falou que seria na quarta-feira”, se recorda ela, que nunca esqueceu da data que mudou sua vida: “Foi naquela quarta-feira, 23 de janeiro de 1991, às 16 horas, que eu entrei no levantamento de peso e nunca mais saí”.

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Somente pouco mais de um ano de treinos bastou para ela ir ao Campeonato Sul-Americano, na Argentina, e se sagrar campeã. Na Colômbia, em 1994, conquistou o bicampeonato continental, e foi disputar o Mundial na Turquia, ficando na sétima colocação.

Bete conta que, certa vez, treinando ao lado de Gómez e alguns colegas em Viçosa, ‘previu’ sua participação em uma Olimpíada. “O professor David falou uma vez: ‘As mulheres [do halterofilismo] um dia vão entrar nos Jogos Olímpicos’. E eu respondi: ‘E nós vamos estar lá’. Ele riu, me olhou e deve ter pensado que eu estava sendo prepotente, velha daquele jeito e querendo Olimpíada. Até porque ele falou que o Brasil iria, mas não disse com quais atletas”, diz ela, rindo.

Participação histórica nos Jogos Olímpicos de 2000

O caminho da mineira para disputar a Olimpíada de 2000 não foi simples. “Em 1999, participei do Mundial na Grécia. Eu precisaria estar entre o 1º e o 15º lugar para ir aos Jogos Olímpicos em Sydney. Infelizmente fiquei no 16º. Mas percebi que, entre as 15 primeiras, alguns países tinham mais de uma atleta, então avisei ao David e ele tentou falar com a federação, mas não tivemos resposta naquele momento”, relata.

E então veio a repescagem, a última chance de vaga aos Jogos. “A gente precisava do terceiro lugar para ir por equipe, e ficamos em quarto. Fiquei chateada. Até então eu não sabia, mas estava classificada no individual. O professor David não tinha ainda a confirmação que conseguiria a classificação pelo Mundial”, conta Bete, que não muito tarde sentiria o alívio pela confirmação da Sydney.

“Alguns dias depois, já no Brasil, tivemos a confirmação por telefone da classificação, porque tinham pegado uma venezuelana e uma chilena no doping. E aí foi só alegria: aos 43 anos, fui a primeira mulher a representar o Brasil nessa modalidade em Olimpíadas, na primeira Olimpíada com mulheres na modalidade”, brada Bete, cheia de orgulho.

Não faz sentido acharem que somos homossexuais só porque praticamos um esporte

Maria Elizabete Jorge

A atuação nos Jogos, no entanto, não foi a esperada: “Fui preparada para pegar, no mínimo, o quinto lugar, mas tive alguns problemas por lá. Sempre treinei com a barra [de peso] masculina, e quando cheguei vi que seria a feminina. Fui treinando e apareceram alguns calos, e aí saiu a pele da palma da mão. Eu continuei treinando machucada, sem problema algum. Mas aí chegaram as meninas que competiriam comigo e, nos treinos, elas transpiravam muito, e as barras começaram a ficar com ferrugem. Como eu não tinha proteção, peguei infecção nas mãos bem perto do dia da competição”.

Para tentar acabar com a dor e tirar a inflamação, Bete colocou as mãos em um balde de água fervente com sal. “Eu não tinha médico nem nada, e fiz essa burrice. A inflamação piorou. Doía demais, mas eu não podia deixar de representar meu país”, conta. Mesmo com a mão infeccionada e doendo, ela ainda levantou um total de 135 kg e ficou no nono lugar.

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“Apesar de tudo, valeu muito. Sinto muito orgulho de ter participado da Olimpíada. E isso ainda abriu as portas para as mulheres brasileiras na modalidade”, diz.

Dedicação à modalidade

A participação histórica em 2000 rendeu a Bete mais espaço na modalidade e, assim, se tornou técnica das seleções masculina e feminina de levantamento de peso, nas quais trabalhou por oito anos.

“Daquele ano (2000) em diante as coisas melhoraram pro nosso esporte. Veio o Bolsa Atleta, coisa que eu não tive, mas os atletas que vieram depois – e até hoje – têm. É muito importante para nós. Para alguns pode parecer pouco, mas é desse pouco que começamos a crescer. Não tínhamos nada. Em todos os esportes do Brasil, com exceção ao futebol, é difícil conseguir patrocínio”, lamenta.

Apesar das dificuldades, ela comemora alguns investimentos que os atletas recebem atualmente: “Melhorou muito nesse sentido. Os atletas de hoje têm vários tipos de bolsa. Isso é ótimo, muito diferente de como era no passado. Eu tirava o dinheiro da lavação de roupa para viajar, e o professor David me ajudava também”.

Traficantes conseguem conquistar jovens. Por que o esporte não? Quero fazer essa diferença

Maria Elizabete Jorge

Mesmo após a passagem pela seleção brasileira, o esporte ainda é constante na vida da histórica atleta. Atualmente, além de tocar um projeto social para a revelação de novos talentos no levantamento de peso e de cursar a graduação em Educação Física, na qual pretende se formar até dezembro do ano que vem, ela é árbitra em grandes competições. Trabalhou nos Jogos Olímpicos Rio 2016 e, agora, em Lima.

“É muito gratificante voltar a esse ambiente, mesmo que como árbitra, e ver os atletas brasileiros competindo. E estou aprendendo muito nessa função”, conta ela.

Sobre o trabalho em Viçosa e o esforço pela valorização tanto de sua modalidade quanto de outros esportes, ela responde com firmeza: “Espero esquentar bastante as orelhas do governo brasileiro para evoluir o esporte e montar boas escolinhas por todo o país. E dos estaduais e municipais também”.

Quebra de preconceitos

Bete conta que, até hoje, a presença feminina no levantamento de peso é vista com muito preconceito. Com machismo, quando homens dizem que não há espaço para as mulheres na modalidade, e com homofobia, quando ela tem de ouvir que as halterofilistas são homossexuais.

“Claro que não tem problema se uma atleta for homossexual, mas não faz sentido achar que nós somos só porque praticamos um esporte”, comenta a ex-atleta, que relatou o episódio mais incômodo que viveu por conta do halterofilismo.

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“O caso mais chato que sofri – e aprendi muito com ele - foi há muito tempo, num dia que eu treinava em Viçosa. Uma garota apareceu pela janela da sala e disse para a amiga: ‘Isso não é mulher, é homem!’. Eu coloquei o peso no chão e falei: ‘Sou homem como a sua mãe, que te colocou no mundo’. O professor Davi chegou para mim e falou: ‘Não é assim que se faz. Chama ela para cá. Traz ela pro seu lado. Mostra para ela que é um esporte para qualquer uma’. Acho que fiquei com raiva porque meu próprio preconceito me causava medo dos outros sentirem preconceito por mim. Hoje eu lido com mais paciência, converso e explico ‘tudinho’ com calma”, relata.

Confiante em um futuro mais tolerante, Bete não relativiza ao falar sobre o assunto. “Esses preconceitos têm que acabar. E vamos que vamos! Com certeza, eu vou estar na ponta, puxando todas as meninas para o levantamento de peso ou qualquer outra modalidade que eu esteja trabalhando”.

Os ‘filhos’ de Bete no levantamento de peso

Como se a marca história em Sydney 2000, o trabalho na seleção brasileira e a luta contra a queda de diversos estereótipos não fossem motivos suficientes de orgulho para Bete, ela ainda enche o peito para falar dos atletas que levou à modalidade.

Ela destaca que já ensinou “muita gente no levantamento de peso”, e que sente muito orgulho dos atletas que pôde revelar à modalidade. Entre eles, se destacam Welisson Rosa, com participações nas Olimpíadas de Pequim 2008 e Rio 2016, e Mateus Gregório, que também competiu nos Jogos na capital carioca. Além deles, Marco Túlo Gregório, irmão de Mateus, esteve agora em Lima 2019. Ao R7, ele contou sobre a importância de Maria Elizabete em sua trajetória.

“Ela tem uma importância enorme lá em Minas Gerais, principalmente em Viçosa, devido ao fato de ter iniciado muita gente boa na modalidade. A influência dela na minha carreira é muito grande. Eu comecei com ela. Ela que me ensinou tudo que eu sei de técnica, movimentos, concentração de competição. Inclusive, aqui em Lima, que eu não estava muito bem, ela chegou me dando dicas e até uma bronca. Sempre teve e terá sempre uma importância muito grande na minha carreira e na carreira dos futuros atletas que sairão de lá”, afirma Marco Túlio, que ficou “feliz de encontrá-la por aqui. O orgulho dela é nítido, de ver que nos iniciou crianças e nos ver, já crescidos, disputando grandes campeonatos”.

Embora Bete tenha revelado nomes de peso em Viçosa, ela não se satisfaz. “Agora tenho que começar a levar as meninas de lá, né? Quem sabe em 2024!”

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