Pan Lima 2019 Magic Paula torce por medalha, mas teme futuro do basquete feminino

Magic Paula torce por medalha, mas teme futuro do basquete feminino

Campeã pan-americana em Havana 1991, Paula diz que nível do torneio caiu bastante: ‘na minha época, os países jogavam com as seleções principais’

Pan 2019

Magic Paula torce por medalha, mas teme futuro do basquete feminino

Magic Paula torce por medalha, mas teme futuro do basquete feminino

Divulgação/EBC

Natural de Osvaldo Cruz, interior de São Paulo, Maria Paula Gonçalves da Silva começou cedo no basquete. E com apenas 21 anos, despontou como grande revelação do Brasil no Campeonato Mundial de 1982, que teve sua fase final disputada na capital paulista, no ginásio do Ibirapuera. Daí para frente, ficou eternizada como Magic Paula e mudou o país de patamar na modalidade.

Agora, na torcida pelo ouro do Brasil nos Jogos Pan-Americanos Lima 2019 - que não vem desde a mágica conquista de Havana 1991 -, Paula prega cautela e diz temer futuro da seleção. “Ainda é muito cedo para fazer um diagnóstico, e achar que os problemas foram resolvidos com a boa campanha nesse Pan”.

A equipe brasileira mede forças com os EUA neste sábado (10), às 23h (de Brasília), na grande final do basquete feminino.

Incentivada pela família, tendo a irmã mais velha como exemplo, Paula começou cedo no esporte e contou com a “loucura” dos pais para iniciar carreira no basquete.

“Sempre gostei de esportes. Fiz xadrez e natação, até me encontrar no basquete aos 10 anos. Depois de ver minha irmã jogar, e insistir muito no clube da minha cidade, consegui uma chance e virei titular. Meus pais sempre me incentivaram, tanto é que com 12 anos eu já saí de casa para jogar. Na época, eles foram chamados de loucos. Mas se não tivessem feito isso, talvez eu não teria virado profissional”.

Depois disso, Paula ganhou a vida com o basquete, fazendo história a nível nacional e internacional, conquistando inúmeros títulos. Dentre eles, os troféus que mudaram o país de patamar no esporte. Primeiro, o ouro em Havana 1991, em plena Cuba de Fidel Castro. Depois, o mundial da Austrália em 1994 e a prata em Atlanta 1996.

“A conquista de 1991 marcou o início de um novo momento no basquete feminino. Naquela época, o Pan era muito forte, equilibrado, com as seleções jogando com os times principais. Por isso, digo que não foi o campeonato mais importante que vencemos, mas sim o mais marcante. Ali, mostramos o basquete feminino para a América. Depois, em 1994, para o mundo. Mas foi lá o momento da virada, onde sentimos que poderíamos ir além”.

Hortência e Paula, premiadas por Fidel Castro, na conquista do Pan de 1991

Hortência e Paula, premiadas por Fidel Castro, na conquista do Pan de 1991

Divulgação/Twitter @magicpaula

No entanto, o legado deixado pela geração de Magic Paula, Hortência e companhia não foi aproveitado. Como resultado, o Brasil não conseguiu mais repetir tais feitos, ficando longe da disputa pelo pódio nas principais competições. Ao menos no Pan a situação é mais confortável, com o país conquistando medalhas em três das últimas quatro edições, com bronze em Santo Domingo 2003 e Guadalajara 2011, além da prata na Rio 2007.

“É um problema geral do país. Nunca aproveitamos os ídolos e as boas gerações que surgem, para dar sequência no esporte. O basquete feminino nunca foi prioridade dentro da entidade (CBB, Confederação Brasileira de Basquete), sempre conviveu com muito amadorismo. O esporte viveu com gestões incompetentes por quase três décadas, o que acabou matando as gerações futuras. Não temos nenhum ídolo atualmente no basquete”.

Foram anos de descaso e falta de incentivo da CBB, que culminaram na não classificação do Brasil ao Mundial da modalidade em 2017 - sendo essa apenas a segunda vez na história que o país não se classificou (a outra foi em 1959, na antiga União Soviética). Ainda assim, o basquete feminino juntou os cacos e conseguiu chegar bem à capital peruana, avançando de forma invicta à grande final. Para Paula, no entanto, é necessário ter calma.

“O Brasil está bem, é sempre bom vencer. Mas é preciso lembrar que estamos com a força máxima, enquanto o Canadá (adversário do Brasil na primeira rodada), por exemplo, foi com o time universitário. Infelizmente, o nível técnico do Pan caiu muito, principalmente no esporte coletivo. A maioria dos principais países utiliza o torneio como teste para as gerações futuras”.

Depois de estrear com vitória sobre a seleção canadense, o Brasil passou por Porto Rico e Paraguai, terminando a fase classificatória na liderança do Grupo A. Na sequência, bateu a Colômbia na semifinal e voltou à decisão após longos 12 anos, reeditando a grande final de 2007, disputada no Rio de Janeiro. Na ocasião, as norte-americanas levaram a melhor.

“Acho que o Brasil pode ganhar o ouro, e estou na torcida para isso. Seria muito bom para a autoestima do time. Mas é preciso, também, pensar a longo prazo. Talvez a colocação do Brasil no Pan, tanto no basquete quanto no quadro geral, possa ser um pouco enganadora, se pensarmos a nível mundial. Ainda é muito cedo para fazer um diagnóstico, e achar que os problemas foram resolvidos com a boa campanha nesse Pan”.

Depois de Lima, as atenções se voltam aos pré-olímpicos da modalidade, que dão vaga em Tóquio 2020. E para o Brasil conquistar uma dessas vagas, o caminho é longo e complicado. Primeiro, é preciso ir bem na Copa América, que está programada para acontecer em setembro, com provável sede em Porto Rico. Depois, terminar a competição ao menos em oitavo, conquistar a vaga no Pré-Olímpico Regional (que acontece em novembro), avançar ao Pré-Olímpico Mundial e lá ficar entre as três melhores seleções.

“É muito difícil pensar no futuro dessa seleção, sabendo que a entidade máxima vive um momento muito complicado, com dívidas e sem patrocínio. Fica muito difícil de falar em futuro assim. Não dá para pensar nem no próximo ano, quem dirá nas Olimpíadas em 2020”, concluiu Paula.

Agora, a equipe brasileira encara as norte-americanas - atuais vice-campeãs - na grande decisão, que está marcada para esse sábado (10), às 23h (de Brasília). A Record TV é a emissora oficial dos Jogos Pan-Americanos Lima 2019. Você pode acompanhar os eventos ao vivo no R7.com e conferir todas as transmissões e as íntegras no Playplus.com.