Cidade Alerta Caso Joaquim: com riqueza de detalhes, Guilherme Longo confessou crime brutal à Record TV

Caso Joaquim: com riqueza de detalhes, Guilherme Longo confessou crime brutal à Record TV

Em 2016, padrasto do menino Joaquim confessou ter matado o menino com golpe de mata-leão; a entrevista à jornalista Juliana Melani repercutiu em todo o país; relembre bastidores

  • Cidade Alerta | Do R7, com informações do Cidade Alerta Interior, da Record TV Interior

A Record TV Interior está na cobertura do Caso Joaquim, que completa 10 anos sem solução em Ribeirão Preto. Esta é a segunda e última parte de uma reportagem especial sobre como a Record TV Interior obteve uma confissão exclusiva do principal suspeito de matar o menino Joaquim.

Começou nesta segunda-feira (16) no Fórum de Ribeirão Preto, o júri popular de Guilherme Longo e Natália Ponte - o padrasto e a mãe do menino Joaquim Ponte Marques, morto em novembro de 2013. Para a Record TV Interior, em 2016, Guilherme Longo confessou com exclusividade durante uma entrevista ter matado Joaquim com um golpe de mata-leão. Na segunda e última parte da reportagem especial, Guilherme dá detalhes de como teria matado Joaquim dentro de casa; a confissão exclusiva do principal suspeito de matar o menino Joaquim foi o resultado do trabalho da jornalista e ex-produtora da Record TV, Juliana Melani.

Em entrevista exclusiva à Record TV Interior, Juliana deu detalhes dos bastidores da investigação jornalística que teve como resultado a confissão de Guilherme Longo. Ela acompanhou cada desdobramento do caso e, assim que soube que o principal suspeito do crime ganharia o direito à liberdade, teve a ideia de se aproximar dele. O resultado foi um dos mais surpreendentes depoimentos feitos a uma televisão: a confissão de Guilherme Longo. O padrasto do menino Joaquim não só admitiu ter matado a criança, como deu detalhes da noite do crime.

Leia mais: Caso Joaquim: confira bastidores da confissão exclusiva de Guilherme Longo à Record TV Interior

Assista à reportagem completa do Cidade Alerta Interior, da Record TV Interior, e siga lendo:

“Quero falar minha história”

Na madrugada do dia 15 de setembro de 2016, Guilherme procurou Juliana; quando ela saiu de casa para uma festa, não imaginava que, horas depois, estaria com o padrasto de Joaquim para a tão esperada entrevista.

Tudo está registrado no histórico de conversas entre a jornalista e o acusado: Guilherme Longo manda uma mensagem às 2h44, afirmando que “ficou acordado pensando muito” e “tomou uma decisão”: queria contar o que aconteceu. Às 4h15 do dia 15 de setembro de 2016, Longo diz: “Confio em você e quero falar minha história”, além de aceitar que tudo seja gravado.

A jornalista marcou o encontro para algumas horas mais tarde, em um posto do bairro Sumarezinho, na Zona Oeste de Ribeirão Preto. Juliana foi até o local combinado, não encontrou Guilherme e decidiu ligar para ele. Guilherme queria discrição e, às 10h, os dois se encontraram em um motel, na periferia de Ribeirão Preto.

Guilherme Longo confessou o crime à Record TV Interior em 2016

Guilherme Longo confessou o crime à Record TV Interior em 2016

Reprodução/Record TV

As revelações de Guilherme

Ao chegar no local combinado, Guilherme segurou o portão do quarto para a jornalista; ao entrarem, em um primeiro momento, a jornalista ficou preocupada. “Logo na hora que eu entrei, tinha uma mesa, uma parede da frente com dois capacetes. Eu entrei sem saber se tinha alguém com ele ou não. Demorei para ficar tranquila de novo e pra ver que não tinha ninguém“, diz Melani.

Guilherme começou a fazer revelações sobre sua vida e a vida com Joaquim e Natália Ponte; fez afirmações sobre o vício em drogas e relata que havia voltado a usar cocaína pouco antes do nascimento de Vitor Hugo, filho dele com Natália.

A gente no fim de semana anterior, a gente tinha ido para São Joaquim, porque a Natália teve essa ideia da gente, de eu passar um tempo lá, mudar de ambiente, fazer coisas novas e ver se eu conseguia dar uma clareada pra... conseguir forças pra tentar parar, né. E nós passamos o fim de semana lá. Eu tava meio mal porque eu tava usando né, eu passei super cansado, deitado.

Guilherme Longo à jornalista Juliana Melani, da Record TV, em 2016, sobre o uso de drogas

A confissão

Ao todo, foram 43 minutos de gravação dentro do quarto. Guilherme conta que as unidades de insulina que desapareceram da caneta do enteado foram usadas, na verdade, por ele mesmo para tirar a própria vida, e não em Joaquim - como afirmam as autoridades do caso.

Eu fiz duas aplicações de trinta unidades, a caneta vai no máximo 30 unidades. Dá.... são duas canetas. tem a da ação rápida e tem uma que é de uso, que é prolongado, sabe? A que é de uso rápido é quando realmente tava muito alto e precisava baixar, num momento crítico. Ela age muito rápido. Falei, vou aplicar essa. Aí eu fiz duas aplicação [sic] de 30 unidades em mim. Deu 60, que era a quantidade que deveria ter faltado, né, numa perícia.

Guilherme Longo à jornalista Juliana Melani, da Record TV, em 2016, sobre o uso de insulina para tentar tirar a própria vida

Guilherme Longo (esq)., padrasto, em foto com Natália Ponte (centro), mãe do menino Joaquim

Guilherme Longo (esq)., padrasto, em foto com Natália Ponte (centro), mãe do menino Joaquim

Reprodução/ Facebook

Em um dos momentos mais tensos da entrevista, Guilherme confessou o crime e explicou como matou o enteado Joaquim.

Então, eu peguei ele no colo e fui até a cozinha dar.. fazer, preparar o ‘mamá’ dele. Nessa hora foi que me veio na cabeça. Né, como eu disse, eu falei se eu conseguir, se eu, nossa, eu falei se por acaso ele não estiver aqui, eu acho que a minha vida vai melhorar. Uma insanidade, né, eu falei ‘ali vai’... é isso que eu preciso. Eu já tava [sic] com ele no colo, eu já levei ele mais pra fora e... matei ele. Eu estrangulei ele... sem... eu não apertei a traqueia dele, né, para não machucar. Eu sabia que ia machucar. Simplesmente, é... comprimi a lateral do pescoço dele para que ele desmaiasse sem dor. Foi rápido. Foi coisa de 2, 3 segundos. (...) E aí ele desmaiou. Eu segurei ele por mais algum período de tempo, até ele não esboçar mais reação.

Guilherme Longo à jornalista Juliana Melani, da Record TV, em 2016, sobre como teria matado Joaquim

A estratégia

O corpo de Joaquim foi encontrado cinco dias depois da família relatar o desaparecimento, boiando no Rio Pardo, em Barretos, a mais de 100km de onde o garoto desapareceu. Guilherme afirma ter pensado em uma estratégia para se livrar do garoto e que o rio fazia parte do plano.

Eu preciso dar um jeito de esconder e... choveu alguns dias e eu tinha certeza que o rio tava [sic] cheio, tava [sic], pelo menos, tinha um volume bom de água. Foi na sorte, que ele podia ter... eu falei, eu vou jogar e eu nem pensei nas consequências, né. Ele podia ter parado em qualquer lugar. Podia ter parado ali. Mas eu não sei porque ele andou tanto, né.

Guilherme Longo à jornalista Juliana Melani, da Record TV, em 2016, sobre como teria matado Joaquim

Juliana conta que assim que terminou a entrevista, deixou o motel. Logo depois da confissão, a jornalista recebeu uma ligação de Guilherme, com um novo pedido. “Até a hora que eu saí, foi tudo bem. Eu voltei para a redação. Por volta das 13h30 desse dia, ele me ligou pedindo para que eu ajudasse a pagar a conta. Ele [Guilherme] me perguntou se eu ainda estava com a câmera, e eu disse que não. Ele ficou bem bravo; não foi grosseiro, ríspido ou falou palavrão, mas no tom de voz, estava alterado. Ele queria de alguma maneira que eu voltasse com a câmera, talvez, porque estivesse se arrependido [de ter confessado]“, afirma Melani.

Juliana Melani, jornalista e ex-produtora da Record TV Interior, obteve confissão exclusiva de Guilherme Longo

Juliana Melani, jornalista e ex-produtora da Record TV Interior, obteve confissão exclusiva de Guilherme Longo

Reprodução/Record TV

A jornalista não voltou para o lugar onde a entrevista foi gravada e, uma semana depois, a mãe de Guilherme, Augusta Aparecida Raymo Longo, procurou Juliana para pedir explicações. "Ela disse que ficou sabendo do que ele fez, chorou, estava bem abalada, e pediu para não colocarmos no ar. Ficou muito chateada comigo. (...) Mas já era um caminho sem volta", diz a jornalista.

Fuga e ataques

No dia seguinte, o padrasto de Joaquim fugiu da cidade. Pouco tempo depois, a defesa de Guilherme Longo apresentou uma carta supostamente escrita por ele, direcionada aos pais. “Achei que conseguiria vender uma reportagem para uma emissora”, diz a suposta carta.

O autor comenta que a televisão não iria querer a mesma história e que ganharia dinheiro para confessar; ele afirma ainda que, por não pensar direito, Guilherme topou a entrevista. Juliana comentou o surgimento dessa carta e afirma que em nenhum momento se preocupou com isso, porque tem os registros de todas as mensagens.

Melani comentou que já esperava comentários que descredibilizassem o trabalho dela; à época, sofreu ataques misóginos de várias pessoas. "Teve muita gente que deu parabéns e achou que foi um ato corajoso. Teve gente que achou que foi um ato extremamente burro, pelo perigo da coisa. E, teve gente que, se fosse um homem que tivesse conseguido a entrevista, teria falado que o jornalista era excepcional. Como sou mulher, tenho que ouvir alguns tipos de comentários sobre a conduta que as pessoas imaginam que você possa ter tido a respeito disso. Mas, está tudo registrado. Eu não tenho porque me preocupar com o que os outros alegam ou imaginam a respeito disso", afirma Juliana.

Depois da entrevista, Guilherme Longo fugiu para a Espanha, usando documentos falsos de um primo para entrar no país; em 2017, ele foi preso em Barcelona. Longo continua preso em Tremembé, em São Paulo. Já Natália Ponte, mãe de Joaquim, responde pelo crime em liberdade.

O que dizem Ministério Público, defesa e acusação

O promotor de justiça Marcus Túlio Nicolino, responsável pelo caso, assistiu à entrevista exclusiva com a confissão de Guilherme Longo à Record TV em 2016, e entende que alguns aspectos da confissão podem ser verídicos. "Ele não aguentou o fato do menino ter sido diagnosticado com diabetes, ter aquele cuidado especial, da proximidade do Arthur... a reportagem tem um fundo de verdade. Não a forma como ele matou o menino, mas o fato de dizer como não aguentou o menino recebendo atenção, a mudança de rotina, as cobranças da Natália", diz Nicolino.

Menino Joaquim, morto em 2013, em Ribeirão Preto; caso completa 10 anos sem solução

Menino Joaquim, morto em 2013, em Ribeirão Preto; caso completa 10 anos sem solução

Reprodução/Record TV

As defesas de Natália Ponte e de Guilherme Longo também comentaram a confissão. "É uma riqueza de detalhes que parece retratar a verdade dos fatos; a forma como aconteceu, com uma superdosagem de insulina, como a acusação colocou, ou se foi com asfixiamento, como o Guilherme colocou, não tem tanta relevância para a defesa da Natália", diz Nathan Castelo Branco, advogado de defesa da mãe de Joaquim. "A princípio, é uma prova ilícita e ilegítima, sem nenhum valor jurídico. A confissão só tem valor quando diante do juiz e na presença do advogado", rebate Antonio Carlos de Oliveira, advogado de Guilherme Longo. 

Juliana Melani, responsável por conseguir a confissão exclusiva à Record TV em 2016, não será ouvida durante o julgamento. Mesmo com a confissão de Guilherme Longo, a Polícia Civil e o Ministério Público trabalham com uma tese diferente sobre a morte da criança. Guilherme nunca concordou com a versão dada pelas autoridades.

Últimas